segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Das dores

"Canto pra esquecer a dor da vida
Sei que o destino do amor
É sempre a despedida"

Então, hoje, prefiro não te amar - se é que isso é passível de escolha - para não ter que me despedir de você. E prefiro não amar a quem quer que seja. Porque partidas são dolorosas demais para mim, hoje.

Porque hoje não posso, e não consigo, conviver com essa dor. Me é insuportável. E por ser assim, escrevo. Escrevo para preencher o vazio que a falta de um amor me faz.

Escrevo para preencher o vazio que a falta da dor da partida me faz. Escrevo para não doer.

E te conto, e conto para quem quiser saber, que hoje não suporto a dor que tudo me traz. A dor que vem acompanhando cada pedaço do dia, cada raio do sol, cada palavra, cada pergunta. "Está tudo bem?". "Sim, está". Para poupar de explicações e consequentes novas dores vindas de lembranças de partidas que já foram e que não devem doer mais - mas doem.

E procuro, insanamente, diga-se, em todos os cantos escondidos e empoeirados e esquecidos, alguma parte doce, ou ao menos insensível, que não partilhe das dores de tudo.

Dores que me assaltam assim que abro os olhos nas manhãs, mas que, apesar de tudo, não me deixam triste. Nem alegre, claro. Mas não me deixam triste, e isso já é algo bom. Porque me protejo do que pode me ferir atrás de uma bolha de apatia que me deixa ver a tudo, mas não sentir nada. Porque aprendi a ver os dias sem cores. Nem cinzas, nem arco-íris. Sem cores, porque dói menos.

Ou pelo menos porque deveria.

sábado, 3 de janeiro de 2009

"Se isso não é amor...

...O que mais pode ser?"

Afeto, carinho, carência, vazio, raiva, indecisão, insegurança, dor, vingança, prazer, satisfação, momento, ódio, saliva, cheiro, toque, movimento, preenchimento, necessidade, sorte, azar, ausência, dó, tédio, apatia, rancor...


"Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva..."

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Canção para o Ano Novo

Que seja doce, como disse Caio. Que seja doce a cada manhã que antecede um dia cheio de coisas novas que podem acontecer a ti. Porque eis o belo da vida: não sabemos o que pode acontecer.
Que cada mágoa não seja mais que uma nova lição de que não se deve - e não se pode - deixar nas costas de ninguém a responsabilidade de te fazer feliz. Que isso só dependa de você. Que você faça muitas coisas: compras, passeios, conversas, cigarros - por que não? - que preencham o seu dia. E que o pouco tempo que lhe seja disponível pra pensar, que você pense coisas boas, e que pense o menos possível no passado. Porque, afinal, ninguém vive disso.
Que cada "remember" seja um novo capítulo, e nunca uma mesmice, uma repetição - pra que tudo tenha a graça que deve ter. E que seja doce! Que lembrar do passado não seja exatamente isso. Que seja viver o presente, e, talvez - quem sabe? - pensar no futuro. Ou que não seja nada disso, mas que seja alguma coisa, além de doce...
Que você cubra seus ódios de amor. Que você dê uma chance ás pessoas. Que você dance. Que você ria de verdade dos seus erros, e procure não mais os cometer. Que você chore com um sorriso grande estampado no rosto. Que você saiba que grandes amores podem se tornar grandes dores, e que não se surpreenda com isso. Que quando essas dores apertarem, você telefone, escreva, desenhe, ouça uma música, tome um banho frio. Ou espere, que uma hora ela vai embora.
Que o medo de não conseguir, não te impeça de tentar. Que o fracasso não seja o motivo da desistência. Mas que você desista, para se poupar, quando preciso for. E que você se guarde para momentos especiais. Não se desperdice (o que não significa que deve se poupar). Não se poupe de nada. Enfrente a tudo com a cara limpa. Levante a cabeça e siga. Sempre.
E que você abra os braços para 2009. Porque ele vem vindo novinho, e você não sabe o que pode acontecer na próxima manhã...
Mas que seja doce!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mal Necessário

Ele gostou. Foi bom sentir de novo o que há tempos lhe era ausente. Um arrepio, um frio na barriga. A espera - incerta - que terminou antes do que se esperava de repente sem que se tivesse tempo de pensar apenas disse "Sim, venha". E estavam ali. Completos.
O gosto de cigarro, o cheiro, o toque, a saliva... Tudo. Era tudo que precisavam. E Legião Urbana.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Para o amor encontrado

Para ler ao som de "Vento no Litoral"
Ele queria um beijo. Mas só se fosse daqueles lábios, os carnudos com que sonhara por tantas noites longas e em claro. Queria enxergar o mundo, mas através das portas castanhas daquela alma sofrida e bonita. Queria só ouvir aquela voz - música para seus ouvidos - suave como a chuva calma da noite fria, aquela voz de pele de pêssego.
Encontrou bocas e olhos e vozes e se perdeu. E não quis ver ouvir sentir mais nada. Deu as mãos para a saudade do que nunca teve e saiu em sua companhia rindo e dançando na chuva. Estava feliz por não estar só, mas faltava algo: aquela boca, a voz de pêssego, os olhos castanhos. Despediu-se da saudade e caminhou sobre as poças de água e lágrimas que havia por aí.
Parou. Olhou, porocurou a agulha no palheiro e achou, lá longe, aquela voz, aqueles olhos, aquela boca - lá longe bem longe onde a vista não alcança. E de novo encheu-se de felicidade. Correu sem sair do lugar, gritou e só o eco respondeu. Mas estava ainda feliz. Achou o que já cansara de procurar. Estava lá depois do horizonte, mas estava lá.
Então abriu seus braços para o mar. Deixou sua roupa umedecer, a água fria entrando por todos os espaços. Era o amor possuindo até o fundo mais fundo daquela alma que achou a gêmea. Ansiou pelo encontro como a criança que espera pelo doce. Nadou até não sentir mais nada - nem braços nem pernas nem o oxigênio transitando pelos pulmões. Mas nem precisava sentir: era como o vento invisível mas devastador.
E nadou nadou nadou até o mais perto do horizonte que conseguiu. E cansou várias vezes no caminho, mas não desistiu. Não podia desistir agora, no meio daquela água toda. Mas não por medo de ser engolido ao fundo do mar. Não podia parar porque encontrara-se de novo com aquela metade de longe que queria perto, para sentir lábios e vozes e olhos e tudo.
E quando deu por si, lá estava, ainda na água, ainda tomato pelo amor. Eu vou conseguir, eu vou abraçá-lo e beijá-lo e convidá-lo pro jantar e pro sofá debaixo das cobertas com pipoca e Almodóvar e Tarantino e Coca-cola.
E uma euforia - a mesma de quem ama na adolescência, a mesma do primerio beijo e do primeiro porre - assaltou-lhe de repente. Era real. Era distante, mas era real. - Tocou-lhe a face, encarou-o nos olhos lindos e castanhos e contemplou sua alma tão doce que podia sentir-lhe o gosto. E - como nunca antes - completou-se.
E felicidade foi pouco para descrever o momento.
E a partir dali, nada do que viesse a acontecer seria melhor ou passível de comparação.
Então rendeu-se às águas mansas do enorme e imponente mar - amor. Sem piscar, sem respirar, sem nenhum som emitir, sua mão deslizou pela pele intocável da metade encontrada, silenciosa e lentamente como o cair da noite.
Foi ao encontro dos cavalos-marinhos. E estava feliz.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Título óbvio

"Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança"
Tô com saudade. Essa palavra sexta ou sétima mais difícil de se expressar em outras línguas, mas que no mundo todo desprevine pessoas que perdem noites de sono e dias de vida pensando e repensando e se moendo e se doendo angustiadas com a falta da presença daquilo ou daquele ou daquela ou de todos ou de alguém. Tô com saudade do riso, do som da voz, da cor do dente, do fundo dos olhos, do brilho da lágrima, da unidade do abraço, da intensidade do momento. Tô com saudade do beijo, da língua, da saliva úmida e quente e convidativa, das mãos pornográficas escancarando a indecência daqueles inocentes desejos carnais. Saudade de não sei o quê. Do toque, da união das peles, do calor dos corpos, do copo de vinho e do maço de cigarros sob a luz da lua crescente-cheia ao som de Raimundos. Das palavas no ouvido sussurradas, do silêncio que dizia tudo. Saudade de você.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Grito

Tem um grito aqui dentro. Seco, ensurdecedor. Um grito sufocado, preso e incômodo, que me tira o sono, que me faz perder a fome e a sede. Que me faz silenciar. Que me faz calar e engolir esse desespero que insiste em querer sair. Mas tenho medo de causar espanto. Guardo esse som estridente como guarda-se o mais absoluto dos segredos. Escondo a dor. Disfarço as feridas. Porque o mundo acostumou-se com aparências. Porque somos podres mas preferimos achar tudo lindo e perfeito, quando todos sabem que basta um sopro leve e tudo desaba. Mas não vou gritar. A aparência é o que restou, e sem ela, isso vira um pandemônio. É necessário que a hipocrisia grite para sufocar os desesperos e sustentar a ordem. Ainda que esta seja a maior das loucuras.