sexta-feira, 25 de abril de 2008

Carta para mamãe

É preciso, mãe. É preciso que eu sofra, mesmo que isso te faça sofrer também. Não é assim a vida da gente? Já ouvi algumas vezes que se você precisa passar por aquilo, ninguém vai passar por você. Sei que gostarias de abstrair de mim todo sofrimento e todas as coisas ruins, que gostarias de juntar toas as minhas mágoas, enfiá-las dentro de um saco preto desses de lixo e levar na esquina e esperar o caminhão de lixo levar tudo embora. Mas não é assim que as coisas são, não é mesmo?
É minha obrigação carregar minhas dores, da mesma maneira que cabem a você as suas. Se nossa liberdade acaba mesmo quando a do outro começa, não queria tudo para você. Apesar de ser um sentimento nobre, nem vale a pena, e não passa de egoismo. "Eu quero sofrer no seu lugar, para te ver sorrir". Mas me causaria dor maior saber que meu riso tem razão na sua dor, então, para que eu não sofra - ainda mais -, me deixe sofrer em paz, me deixe aprender com a minha dor. Me deixe morrer tentando ser feliz., tentando achar um caminho florido por aí.
Afinal, o que é a vida senão a busca pelo que nos faz bem? Só conseguimos busccar algo com afinco e prazer, tentando. Me deixe tentar. E aí, quando eu não conseguir, não sofra, não sofra for mim. Estarei bem em pouco tempo, e poderei navegar por outros mares, experimentar novas sensações, percorrer outros caminhos.
E um dia, quando eu estiver feliz, te convido a participar da mesma sensação. E abriremos o sorriso mais cheio de dentes, e multiplicaremos a felicidade plena da tentativa que deu certo.
Não fique espantada com a minha possível frieza, mas é que quando tem uma meleca no seu nariz, ninguém pode tirá-la senão você. Então deve haver prazer em realizar uma tarefa que o mundo - ? - designou a você cumprir, e só a você. Aí você enfia o dedo no nariz com gosto, e tira aquela meleca que te incomodava. Se você faz isso na frente de outras pessoas, talvez terá que ouvir que isso não se faz, que não é higiênico e é falta de educação. Mas isso importa realmente? Se importa, não deveria. Porque a meleca estav te incomodando, e agora não está mais! Então vire as costas e saia, não de ouvidos. Às vezes, para sermos felizes, precisamos ignorar.
Pássaros presos em gaiolas não voam. Com o passar do tempo, talvez eles parem até mesmo de cantar, e isso não é bom. Pássaros devem ser livres, devem buscar a própria comida e conhecer as flores mais bonitas sozinhos.
Bata suas asas e vá atrás de suas flores. Quanto ao resto, o caminho nos mostra o que fazer, e se por acaso as pedras ou o vento ou alguma coisa machucar as suas asas, desça, cure-se e tenha a certeza de que eram AS SUAS asas que deveriam ser atingidas, e não as de outros pássaros. E encare tudo como um aprendizado, porque no fim das contas, é isso que é mesmo...

4 comentários:

Darlan disse...

Não queira me matar, mas eu lembrei de uma música do Agnaldo Timóteo... rs É uma música bonta, que fala mais ou menos disso também. Gostei do texto!! =)

paulinho cajé disse...

A vida seria a coisa mais covarde, deixar a gnt sobreviver em meio ao caos nosso de cada dia, e não nos deixar ao menos uma vez mostrar nossos dentes amarelados sorrindo - não, eu não acredito que ela seria tão cruel, pelo menos não é possível!

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Adorei o texto dérson!

rubia (escriba eventual) disse...

Dizem que só entendemos o que é ser mãe ou pai, sendo. Acredito que é algo inerente à paternidade e à maternidade sofrer com os filhos. Note o "COM" e não "pelos" filhos...
Porque até mesmo os pais sabem que a gente deve sofrer para aprender.

Achei muito bom o seu texto. E veio a calhar, já que estamos perto do dia das mães...

bruna disse...

"Bata suas asas e vá atrás de suas flores."

melhor parte